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Próximo Futuro

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25
Jan10

Asmara

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Pelas 6:30 da manhã, grupos de mulheres de rostos emoldurados por cândidos véus brancos de 5 metros de comprimento, o nezelá, e o corpo envolto pela tradicional zuria, a longa túnica branca até aos pés, percorrem a ainda ensonada Asmara em direcção à igreja católica ou ortodoxa, saudando os praticantes islâmicos que já abandonam as suas mesquitas. Inicia assim o dia de Asmara, capital da Eritreia, e desenrola-se numa sucessão de ritos e cerimónias recorrentes, um atrás do outro, até ser noite.



O simples gesto de tomar um café é uma autêntica função, verdadeira encenação, cheia de gestos antigos e sábios, que começa com a torra dos grãos no fornello e termina quando se toma a terceira chávena deste café doce e condimentado, sempre único, acompanhado de pipocas, tagarelices e incenso. A Eritreia debruça-se sobre o Mar Vermelho e a sua longa costa, especialmente a parte desértica, é um dos lugares mais quentes do mundo. A capital, por sua vez, construída a 2.400 metro de altura, goza de um clima ideal e de um céu azul sempre garantido.

Asmara é uma cidade para passear, para descobrir lentamente, em cada detalhe. A criatividade dos arquitectos italianos que no início do século XX construíram casas e palácios, ruas e praças, em perfeito estilo decò italiano, cubismo, expressionismo, racionalismo, e o cuidado, o orgulho e a hospitalidade dos seus habitantes, os asmarini, tornam-na um lugar agradável, limpo e seguro onde se demora em doce vagabundagem. Parques com fontes e jardins oferecem, a residentes e visitantes, o repouso à sombra de exuberantes buganvílias, jacarandás e jasmins, e ali podem, quem sabe, saborear um sumo fresco de zeitun.

Se cada cidade tem um lugar que fascina e onde nunca nos cansamos de voltar, aqui esse lugar é, como nenhum outro, o Medeber: o reino da transformação, da reutilização, hoje diríamos da reciclagem, de qualquer desperdício. É a incansável fabrica das mil actividades artesanais, que faz surgir de entre ferragens utensílios diversos, camas, cruzes, cadeiras, e até o ruído de serras, plainas e martelos se transforma em melodia nesta incrível oficina a céu aberto.

Chegada a noite, às 18:00, a cidade pára, todos os que circulam na artéria principal, a Independence Avenue, se imobilizam por um minuto, em respeito ao arrear da bandeira nacional que é assim honrada e que representa o sacrifício e a determinação de um povo que escolheu a liberdade. É hora de jantar, a cidade esvazia-se mas os seus numerosos restaurantes que servem injera animam-se.



A refeição é o enésimo momento de convívio, e também este segue um ritual complexo mas harmónico. Sentamo-nos no chão, sobre um tapete ou uma esteira de palha e repartimos um prato situado ao centro. A injera, prato tradicional eritreu, é um disco de pao esponjoso, de sabor ácido delicioso, que se serve com uma selecção rica de acompanhamentos de verdura ou carne. Come-se rigorosamente e apenas com a mão direita, o que requer uma certa habilidade e, não raramente, um dos amigos comensais decide preparar um pedaço particularmente saboroso e dar-nos à boca. É um gesto de grande respeito e que pode ser repetido duas vezes. O zighini é o acompanhamento por excelência: um estufado de carne de vitela, borrego ou frango, cozinhado num refogado de cebola e tomate, polvilhado com uma generosa mão cheia de berberé, a picantíssima mistura de especiarias

É por isto, e por mil outras razões, que um dia passado em Asmara nos deixa de “boca aberta”


Silvia Bottone
Funcionária da UE

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