Quase todas as chegadas a Abeché acontecem num dia sem cor. Ruas de terra, casas de adobe, minaretes, largas avenidas percorridas por burros, alguns camelos, mais burros, com palha, com água, com alimentos. Muitos burros e pó, tanto pó. A cidade parece de uma só cor. Da cor do pó. São as primeiras imagens que se absorvem antes de ousar invadir o ambiente e a privacidade dos estreitos labirintos de barro, onde se pressentem movimentos e gritos de crianças.
Os muros protegem o mundo dos quintais, a vida do interior das famílias. Panos e lenços escondem cabelos e disfarçam as caras das mulheres e raparigas. Os homens vestem-se de largos e leves fatos, caftãs, e turbantes adaptados ao calor e ao pó. Turbantes brancos ou amarelos em movimento, a caracterizar a azáfama das ruas, a religião ou a cultura, e uma forma de suportar o pó.
Na grande praça da rua principal, ao lado do souk, há um mercado de legumes, e nas barracas improvisadas compram-se almofadas coloridas e colchões de esponja. No meio da praça esperam os táxis amarelos e táxis “motociclos” de 3 lugares e caixa fechada, que transportam pessoas e mercadorias para os vários cantos da cidade.
Abeché foi fundada em 1850. Veio substituir a antiga capital do histórico sultanato do Ouaddai, Ouara, que deixou de existir pela falta de água. O sultanato do Ouaddai dominou um importante território do actual Chade, até à conquista francesa em 1912. Com o Sudão a menos de 200 km e Ndjamena a 600 km, Abeché foi (e ainda é) conhecida pela importância militar bem como pelo foco de propaganda religiosa. As movimentações pressentem-se, mas não se entendem. O Ouaddai estende-se pela região semi-desértica do Sahel, onde as geografias das cidades e lugares dependem das fontes de água. Com cerca de 60.000 habitantes, a cidade é um lugar de passagem essencial, das caravanas do deserto (trans-sahareanas), das peregrinações a Meca e um importante pólo económico.
Agora é também palco da coordenação da assistência humanitária no leste do Chade (onde mais de 200.000 mil refugiados sudaneses, e inúmeros deslocados internos se espalham pelas extensas regiões entre Sahara e Sahel).
Mas apesar da quantidade de expatriados das variadas agências de ajuda humanitária e dos inúmeros viajantes e nómadas que passam pela cidade, Abeché continua uma cidade virada para ela mesma. E aparenta-se imiscível às influências externas.
O calor chega discretamente aos 46ºC, alguém precisou. E sente-se.
Na vasta praça da independência, ao lado da muralha das portas de Abeché, passa uma caravana de camelos que atravessou a cidade, passam carroças puxadas por burros, cheias e vazias. Homens e grupos coloridos de mulheres percorrem este largo espaço em direcção a alguma mesquita, a algum labirinto da cidade ou em direcção ao deserto.
Sandra Ferreira
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