Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

Superfície: 1000 km2,

População: 881.000 habitantes no último recenseamento de 1999.

A cada regresso, conheço Nouakchott pelos olhos do meu petit frère Hamidou , o que quer ver a Europa um dia, a todo custo. É ele que me conduz sabiamente dentro desta cidade de vento e areia, miséria e Islão, verdadeiro não-lugar onde o tempo parece parar, onde todos andam, incansáveis, por ruas poeirentas que não levam a nenhum centro, a nenhum coração da cidade, simplesmente porque Nouakchott ganha existência apenas pela acumulação das suas casas, das suas barracas, das suas boutiques abertas vinte e quatro horas por dia sem que a organização do espaço siga a mínima lógica de organização à volta de um centro, de uma ideia de baixa da cidade.

Nouakchott fica à beira mar, entre o Saara e o Atlântico. Porém, se não fosse pelo cheiro a maresia que apenas às vezes chega com o vento e a areia, ninguém daria por isso. A cidade é uma espiral, umbigo estéril, fechada sobre si própria. Vila de pescadores até 1958, quando foi inventada capital de um país igualmente inventado, na altura contava pouco mais de 20.000 habitantes, hoje quase 900.000, pouco menos da metade da população total do país.

Encenação de todas as tensões da fragilíssima nação mauritana, Nouakchott existe e se revela sobretudo nos seus mercados, palco onde todos falam as línguas dos “outros outros” conforme o vendedor e a mercadoria e onde homens em roupas brancas ou azuis bordadas em ouro espreitam o corpo das mulheres pular ou soninké que se balançam calçando sapatos dois tamanhos mais pequenos em amplos boubous em wax colorido ou através das melewas das obesas mulheres mouresques, espécies de saris de gaze trabalhada em batik.

Mesmo assim não há cores em Nouakchott. As muitas almas da Mauritânia , país charneira entre duas ideias de África, aqui vivem apenas lado a lado, sem nunca se misturar. A única pertença possível continua a ser a família e a aldeia/comunidade de origem e nos bairros pobres da capital continua a reproduzir-se uma vida regida por regras ditadas por uma sabedoria rural, única ancora perante a renovada miséria, pouco disposta a negociar outras possíveis maneiras de estar.

Livia Apa
Investigadora


publicado por Próximo Futuro às 00:28
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