Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010
Dakar é uma das maiores cidades de África. Percorrer as suas ruas é como meter-se numa grande feira onde não falta animação. Não se faz 1 km sem se ser interceptado por um vendedor, não importa de quê. A cidade é feita de vendedores e, consequentemente, de compradores.

O quadro pictórico da cidade e seus arredores é marcante. É um festival de côr, de barafunda, de trânsito caótico.

Os car-rapide com o seu colorido exuberante servem de transporte aos menos favorecidos, ou seja, grande parte da população local. São um delírio visual, autênticos carrinhos de feira com desenhos e alusões religiosas. Estes car-rapide na sua grande maioria são velhos, com chapa batida, mal cuidados e muito porcos. É o transporte diário possível para os milhares de locais que se empacotam desajeitadamente no seu interior. A nós, europeus, transportam-nos para o reino da fantasia! Vê-los a circular remonta à nossa infância, aos nossos brinquedos de lata!

Será Dakar a cidade com maior número de taxis por m2? Por cada carro devem existir pelo menos três táxis. Detectam-se à distância pela sua côr amarela torrada.

As carroças puxadas por cavalos ou burros são um meio de transporte muito usual para todo o tipo de carga e mesmo pessoas. Emprestam à cidade e arredores um tom ecológico que contrasta com a poluída urbe de Dakar.

Sendo o Senegal um país onde o islamismo predomina, é uma constante em Dakar o canto da chamada dos muezzini apelando à reza.


Dakar é ainda tropeçar nos meninos de rua com as suas malgas amarelas. São os meninos (talibés) que vêm de todo o Senegal aprender o Corão sob a autoridade de um líder espiritual (marobout). Muitos destes mestres do Corão obrigam os seus discípulos a permanecer na rua em condições muito desfavoráveis a praticar a mendicidade. Aparentemente esta mendicidade é um fenómeno singular no Senegal não sendo conhecida esta prática noutros países de cariz muçulmano.



Dakar e toda a sua costa está decorada de pirogas. Há imenso peixe. Nalgumas praias compra-se o peixe acabado de sair do mar, fresquíssimo e a bom preço. O espectáculo é, no mínimo, surrealista, cómico também. É o peixe a chegar nas pirogas, a escolha, as vendas… ao largo as crianças…. as bucólicas ovelhas que estão por todo o lado… as mulheres que amanham o peixe… o cheiro intenso, as moscas… os cães espraiados e esfaimados.

Dakar está em permanente construção, por isso Dakar é sujo, é um Dakar de mil poeiras. Ainda assim Dakar tem uma marginal esplêndida onde nos podemos regozijar com uma vista azul-esverdeada do imenso Atlântico.

Muito mais há a dizer sobre Dakar, difícil é sumariar uma cidade quando há tanta coisa para ver e sentir!

Helena Nunes
Em Dakar desde Outubro de 2009

Fotografia de Fátima Serrão Gomes


publicado por Próximo Futuro às 08:24
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3 comentários:
De José a 20 de Janeiro de 2010 às 15:11
Helena, gostei muito da tua crónica, mas, como tu própria sugeres, soube a pouco.
Fizeste um esboço em traço grosso.
Que tal, agora, uma peça em filigrana, um aspecto desse imenso caleidoscópio descrito em detalhe: uma aproximação demorada a um rosto, a um grupo, a uma cena?
E que tal uma abordagem pelo lado da poesia, que é a linguagem por dentro da qual verdadeiramente te mexes sem constrangimentos?

De Lisboa para Dakar,
um abraço para ti.


De Paula Araujo a 20 de Janeiro de 2010 às 21:15
Ola Helena

Gostei do teu retrato de Dakar. Fiquei com a cor e o som dessas ruas caoticas e com o olhar dos meninos "de rua".

Fico a espera de muitos mais textos. Por isso, ficas nos meus favoritos.

Beijos e curte bem.
Paula (Beira)


De Maria, Simplesmente a 22 de Janeiro de 2010 às 14:34
Esperamos mais descrições Helena, mais fotografias de tanto quadro real, que pouco podemos imaginar e que criou em muitas imaginações um país diferente, tendo em conta
um "Paris/Dakar... um Lisboa/Dakar...
Venha a realidade Helena... fico à espera.
Abraço
Maria


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