La Paz
Há um atavismo evidente nesta cidade que se traduz pelo modo como o pior do folclore se impôs enquanto o mundo lá fora continua a mudar. Muitos dizem que tem sido reforçado, como um estado de alma, desde que Morales e o seu socialismo se impuseram. É óbvio que pouco há de socialismo nesta cidade e no país, até porque na definição clássica do mesmo os meios de produção não estão nas mãos dos trabalhadores, são muitas vezes propriedade do Estado, melhor dizendo, do governo e dos seus ministros. E se é um facto que o indigenismo é uma realidade estranha para o europeu, também é sabido que o indigenismo tem sido proclamado como um instrumento populista e pouco sério.
A cidade é remendada, descosida, íngreme claro, na sua geografia, mas também no modo de ser: tudo vive num plano inclinado em que o esforço de subir montanhas é proporcional à descida abrupta e veloz de que os múltiplos sinais de pobreza dão conta.
La Paz dói.
O mal das alturas, assim dito, parece uma expressão de BD ou uma ficção com extra terrestres, mas existe e é bem real. A 3.600, a 3.400 ou a 3.200 que são as alturas das três plataformas onde foi construída La Paz, com a falta de oxigénio, a cabeça parece estalar, as dores são insuportáveis, qualquer caminhada de cem metros parece uma maratona pelo esforço que é preciso despender, o nariz sangra, o corpo é de uma fragilidade única. E são assim dias seguidos.
La Paz ainda.
A cidade vive o fantasma da América como um fantasma dos anos 70.Sem desresponsabilizar os EUA por parte do estado calamitoso a que chegou a economia nos anos 80 e 90 é, contudo, uma caricatura a imagem que se constrói deste "inimigo" externo, responsável por todos os males do mundo. Ele é nos murais pintados nas paredes da cidade, com figuras retiradas dos murais mais radicais dos anos 30 mexicanos; ele é nas expressões de "luta" popular: "só há dois caminhos: ou vencemos a América ou ela destrói o mundo", ladeadas pela figura de Evo Morales; ele é nas inscrições, à porta da universidade, sobre o perigo do imperialismo. Simultaneamente, o dólar é a moeda forte que circula em todas as trocas comerciais, na rua, no comércio paralelo, nos supermercados, nos táxis. E a propósito de um pequeno bairro, onde se erguem algumas dezenas de arranha-céus, os guias turísticos anunciam com orgulho estarmos na piqueña new iorque. Há nisto algo de grotesco que se compreende pelo populismo instaurado. A última medida governamental foi a de aconselhar, nos passeios ao campo, que as pessoas comessem carne seca, que é a alimentação nacional porque originariamente indígena.
Três boas recordações.
El Ascensor, uma primeira obra cinematográfica do realizador Tomás Bascopé , o encontro com Cergio Prudencio, compositor de música contemporânea e criador da Orquestra Experimental de Instrumentos Nativos e as pinturas Da Sistina da Bolívia da Capela de Santiago de Curahuara de Caranjas vistas à distância de postais.
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Entrevista com António Pinto Ribeiro
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