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Próximo Futuro

Próximo Futuro

21
Jan10

Cairo

Próximo Futuro

População: 20 milhões de habitantes

Passear no Cairo é uma experiência ímpar. Temos a sensação de que nos vamos perder no meio da população compacta a qualquer momento. Chegámos nos dias em que decorreu a ultima celebração religiosa do ano, as famílias reuniram-se para os festejos, a multidão tornou-se muito maior.

Caminhamos nas amplas ruas do centro do Cairo, a parte moderna da cidade. Não é uma zona bonita, mas é para onde convergem as principais ruas que imprimem o cunho europeísta que a cidade sofreu. No pouco espaço livre nos passeios, cruzamo-nos com vendedores ambulantes de doces e de batata-doce assada. Os cheiros adocicados flutuam no ar.



Entre as principais avenidas, destaca-se Corniche el Nil, junto ao Nilo. Nunca estive num sítio com tanta gente, famílias completas percorrem a avenida, grupos de jovens passeiam descontraídos e animados. Homens caminham de mãos dadas discutindo fervorosamente. Os cairotas são simpáticos, sorriem alegremente, os adolescentes arriscam um divertido “hallô” às ocidentais. No rio indolente os numerosos barcos, decorados com iluminações que lembram os nossos “carros de choques” garantem uma amálgama de cores na água.

O trânsito é simplesmente caótico, centenas de viaturas circulam pelas avenidas, misturados entre charretes e carroças puxadas por burros. É raro ver um carro que não esteja danificado, o barulho das buzinas é ensurdecedor.

Do cimo da Cidadela, fortaleza medieval que domina a cidade, fundada pelo lendário Saladino, temos uma das mais impressionantes vistas sobre a cidade. O Cairo não tem fim, é imenso. A cor, definitivamente é o ocre. Revela-se a floresta de minaretes e cúpulas que povoam a metrópole, os chamamentos dos imans cruzam-se no ar.

Descemos e dirigimo-nos para o Cairo islâmico. A primeira paragem é na mesquita de Al-Azhar, fundada pelos fatimidas em 970 é uma das mais antigas e emblemáticas. È igualmente um dos mais importantes centros de estudos islâmicos. Somos obrigadas a entrar de véu, é uma emoção muito forte. Lá dentro reza-se e estuda-se, os devotos são de todas as partes do planeta, temos o mundo à nossa frente.

De seguida vamos para um dos mais bazares do Médio Oriente, Khan al-Khalili. São centenas de lojas coloridas minúsculas, cortadas por ruas estreitas, onde tudo se vende. O barulho é indescritível, aliás, toda a cidade é barulhenta, o som da música é persistente. No meio das ruas descobrimos finalmente o mais emblemático café do bazar. Fishawi’s tem mais de duzentos anos, o café prolonga-se pela rua com os seus espelhos e cadeirões. É extremamente acolhedor e simpático, ocidentais e cairotas confraternizam entusiasticamente. Bebemos sumos de frutas aromatizados com especiarias, fuma-se a tradicional Sheesha. Ouvimos novamente o mais simpático piropo que se pode dizer a uma ocidental “you walk like an egyptian”.

Isabel Ricardo
Arqueóloga

Fotografia de Catarina Cordas
20
Jan10

Dakar ou o Grande Bazar

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Dakar é uma das maiores cidades de África. Percorrer as suas ruas é como meter-se numa grande feira onde não falta animação. Não se faz 1 km sem se ser interceptado por um vendedor, não importa de quê. A cidade é feita de vendedores e, consequentemente, de compradores.

O quadro pictórico da cidade e seus arredores é marcante. É um festival de côr, de barafunda, de trânsito caótico.

Os car-rapide com o seu colorido exuberante servem de transporte aos menos favorecidos, ou seja, grande parte da população local. São um delírio visual, autênticos carrinhos de feira com desenhos e alusões religiosas. Estes car-rapide na sua grande maioria são velhos, com chapa batida, mal cuidados e muito porcos. É o transporte diário possível para os milhares de locais que se empacotam desajeitadamente no seu interior. A nós, europeus, transportam-nos para o reino da fantasia! Vê-los a circular remonta à nossa infância, aos nossos brinquedos de lata!

Será Dakar a cidade com maior número de taxis por m2? Por cada carro devem existir pelo menos três táxis. Detectam-se à distância pela sua côr amarela torrada.

As carroças puxadas por cavalos ou burros são um meio de transporte muito usual para todo o tipo de carga e mesmo pessoas. Emprestam à cidade e arredores um tom ecológico que contrasta com a poluída urbe de Dakar.

Sendo o Senegal um país onde o islamismo predomina, é uma constante em Dakar o canto da chamada dos muezzini apelando à reza.


Dakar é ainda tropeçar nos meninos de rua com as suas malgas amarelas. São os meninos (talibés) que vêm de todo o Senegal aprender o Corão sob a autoridade de um líder espiritual (marobout). Muitos destes mestres do Corão obrigam os seus discípulos a permanecer na rua em condições muito desfavoráveis a praticar a mendicidade. Aparentemente esta mendicidade é um fenómeno singular no Senegal não sendo conhecida esta prática noutros países de cariz muçulmano.



Dakar e toda a sua costa está decorada de pirogas. Há imenso peixe. Nalgumas praias compra-se o peixe acabado de sair do mar, fresquíssimo e a bom preço. O espectáculo é, no mínimo, surrealista, cómico também. É o peixe a chegar nas pirogas, a escolha, as vendas… ao largo as crianças…. as bucólicas ovelhas que estão por todo o lado… as mulheres que amanham o peixe… o cheiro intenso, as moscas… os cães espraiados e esfaimados.

Dakar está em permanente construção, por isso Dakar é sujo, é um Dakar de mil poeiras. Ainda assim Dakar tem uma marginal esplêndida onde nos podemos regozijar com uma vista azul-esverdeada do imenso Atlântico.

Muito mais há a dizer sobre Dakar, difícil é sumariar uma cidade quando há tanta coisa para ver e sentir!

Helena Nunes
Em Dakar desde Outubro de 2009

Fotografia de Fátima Serrão Gomes
19
Jan10

Luís Sepulveda

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Luís Sepulveda é um contador de histórias exímio. Faz parte da melhor tradição da cultura da oralidade urbana que nasceu nos cafés de Santiago do Chile, de Buenos Aires e nos botecos do Rio de Janeiro. Há sempre algo de charla na maneira como Sepúlveda tece as suas narrativas, no tempo longo que as suas personagens se permitem ter, personagens que são sempre "figuras" da cidade, na aparente inverosimilhança dos episódios vividos, na sistemática presença de alcunhas, num psicologismo popular. Nesta sua última obra, intitulada "A Sombra do que Fomos", três antigos militantes de esquerda dos tempos da ditadura chilena, hoje sexagenários, decidem, apesar de viverem já num regime democrático, dar o seu último golpe revolucionário. Para tanto, e passados trinta e cinco anos, reunem-se comendo frangos de churrasco num velho armazém nos subúrbios de Santiago. Durante esta reunião discorrem sobre as suas aventuras passadas e sobre o lado tenebroso e mortífero do regime de Pinochet. Ao mesmo tempo, um casal desavindo - ele abandonou a guerrilha e agora passa os dias em casa vendo clássicos do cinema - mata por descuido uma outra personagem, que não era senão um quarto membro do grupo que se lhe juntaria para executar a acção revoluconária. Este episódio acaba por servir para introduzir a tónica de policial, com a entrada na acção de dois detectives - uma jovem e um veterano - que muito humanamente vão resolver o drama. O plano dos três ex-guerrilheiros acaba bem, descobrindo-se, afinal, que tinha sido forjado previamente por um anarquista. Desde o ínicio que as personagens ganham a empatia do leitor, pela candura que transportam e pelo seu idealismo romântico. Mas, atrás desta estória de bons e nostálgicos guerrilheiros, há um aspecto fulcral e profundamente histórico e político. Trata-se, para Sepúlveda, de olhar, estudar e enfrentar o período histórico da Ditadura. O Chile tem feito um esforço importante em tratar esses anos de uma forma histórica e acessível à maioria dos cidadãos, através de centros de documentação, de algum cinema, de muito teatro. Ao ler "A Sombra do que Fomos" percebe-se que todo esse esforço não é, contudo, ainda o suficiente. Até porque este período não está ainda encerrado. Até porque, "dizem que quando os «de cima chegaram», o inspector lia em voz alta o conteúdo de um caderno de contabilidade. Repetia nomes conhecidos, mencionava quantias alarmantes". Assim acaba a novela!


A Sombra do que fomos, trad. de Helena Pitta, Porto Editora, Outubro de 2009

apr
19
Jan10

Mohamed Machfar

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Mohamed Machfar, um xeique tunisino destaca-se pela sua personalidade de religioso liberal com um discurso moderado capaz de estabelecer pontes entre a religião e as comunidades ocidentais mais seculares. Com um programa de rádio e enchendo a mesquita nos dias das suas preces pode ser contactado no facebook. O link para a sua página, aqui.
18
Jan10

Edinburgh (Energia positiva)

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Meio atrapalhado, na estação de comboios, sem saber que direcção tomar, mesmo com uma agenda bem traçada e munido de mapas, preferi seguir o meu instinto e guiar-me pela arquitectura que confrontava a minha sensibilidade. Era ainda muito cedo para visitar os museus e galerias que constavam da minha lista, só o poderia fazer mais tarde.

Era domingo, 15 de Novembro de 2009 e fiquei por ali das 8.45h às 18.15h num clima carregado de nuvem cinzenta e frio de 7 graus. Nunca tinha visitado uma cidade grande em tão curto espaço de tempo.

Uma das vias para se sair da estação é uma rampa que termina numa rua ao cimo de uma pequena colina. Ao fundo da rampa podia-se ver um autocarro turístico com 2 pisos, estacionado na perpendicular. Este elemento atraiu a minha atenção e tornou decisiva a tomada de direcção. Ao chegar ao cimo da rua, no cume da colina, apercebo-me de estar mergulhado num “alto mar” arquitectónico que não escaparia nem à visão de um cego mesmo naquele clima cinzento! Uma sincronização de formas e atitudes arquitectónicas desde o Barroco, passando pela Arte nova e pelo Modernismo.

Uma sensação esquisita provocada pelo frio, pela fome e alguma desorientação, tornava-se mais aguda por isso decidi fazer uma pausa estratégica para um café. Lembrei-me da referência de um Mac Donald ali perto de que me falara o meu amigo Mathew. Levantei a cabeça numa tentativa de adivinhar a direcção da sua localização quando deparei com uma rapariga solitária, de traços asiáticos, ar muito descontraído, caminhando na minha direcção como se fosse oferecer-me serviços de guia turística. Não perdi a ocasião e gentilmente pedi-lhe informação sobre a localização do Mac Donald. A resposta dela foi automática, dizendo que não era de Edinburgh e continuou o seu caminho. Eu também.



Uns passos depois oiço uma voz feminina precipitada atrás de mim dizendo: “Sorry gentlemen, do you mean Mac Donald?” Eu também de forma precipitada, virei-me para ela e respondi que sim. Com um sorriso mais simpático que própria simpatia, ela desculpou-se mil vezes com vénias japonesas, como se tivesse feito algo de muito grave, mas sem medo de punição, pelo facto de não ter percebido logo a minha pergunta, argumentando que o seu inglês era fraco. “No, sorry I think mine is worse” - disse eu. Mas outra vez não me entendeu e com o seu jeito atrapalhado e servil, não me deixou dizer nem mais uma palavra e foi andando, apressada, em direcção a um cruzamento convidando-me a segui-la. Chegados à esquina ela apontou um edifício onde facilmente li “Mac Donald”. Numa tentativa de agradecimento, afinando o meu inglês para o sotaque mais britânico possível, convidei-a para tomar um café. Hesitante e até um pouco embaraçada, aceitou.

Ting Fang Hsueh é uma jovem Taiwanesa, estudante de curadoria em Londres, que estava em Edinburgh numa condição parecida com a minha: com o propósito de visitar museus e galerias. Aquele era o seu 3º e último dia, quando a encontrei dirigia-se à estação para regressar a Londres. Ting Fang Hsueh depois de se aperceber desta coincidência de objectivos e de que afinal pertencíamos a uma mesma “tribo profissional”, decidiu adiar a sua viagem para mais tarde e ser minha guia turística na cidade.

Levou-me ao Fruitmarket Gallery, uma galeria de arte contemporânea que mostrava a exposição “The and of the line - atitudes in drawing” bastante interessante e didádica para quem cultiva o desenho. À National Gallery, como todos museus tradicionais, não fiquei impressionado, quadros e esculturas mediavais dominavam o ambiente expositivo. Ao Castelo de Edinburgh, num tour que foi contornando ruas e avenidas sob o fundo de edifícios e estátuas, cruzando com pessoas de toda parte do Mundo, artistas e mendigos performando, lojas vendendo kilts(veste tradicional escocês) e outros objectos tradicionais, atingimos finalmente o centro folclórico de Edimburgh. Cumprimos com os rituais turísticos (tomadas de poses fotográficas, compra de bilhetes e postais de e um cafezinho. Uma atmosfera bastante exótica invadiu-nos ao penetrar a dentro do castelo. Paredes grossas e escuras, muita gente entrando e saindo, um homem ao fundo trajado de kilt tocando um instrumento típico, um canhão do século 18 preparado para disparar e depois a guia oficial conduziu-nos ao grande salão com tecto alto, muito ornamentado e iluminado contrastando completamente o espaço exterior, onde relatou-nos em 5 minutos a historia de Edimburgh.

Edinburgh é a capital escocesa desde 1492 e é a sede do parlamento escocês, desde 1999. Após a unificação do parlamento da Escócia com o da Inglaterra, Edinburgh perdeu sua importância política mas permaneceu um importante centro económico e cultural. Conta com cerca de 448.624 habitantes e é dominada pelo Castelo de Edinburgh construído sob uma rocha de origem vulcânica o que atrai centenas de
turistas. A Universidade de Edinburgh foi pioneira na informática e gerenciamentos.

A curadora e minha guia na aventura rápida de conhecer Edinburgh em menos de 12 horas, tomou notas sobre tudo e mais alguma coisa das nossas conversas. Partiu no comboio das 17h para Londres. Eu parti as 18.15h para Aberdeen esmagado pelo desejo de continuar naquele sonho de descoberta. Apesar de Edinburgh parecer uma cidade bastante conservadora, está cheia de mistérios, surpresas e muita energia positiva.

“Keep in touch”...

Gemuce
Artista plástico moçambicano em residência em Huntly (Aberdeen share)
16
Jan10

A pergunta não é: que pode a literatura? Mas sim: que podem os literatos?

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A três páginas, apenas a três páginas, do final da novela Noturno do Chile, o narrador afirma: "É assim que se faz literatura no Chile, mas não só no Chile, também na Argentina e no México, na Guatemala e no Uruguai, e na Espanha, na França e na Alemanha, e na verde Inglaterra, e na alegre Itália. Assim se faz literatura". É demolidora esta afirmação. Ela encerra a história ancestral da relação de comprometimento de muitos intelectuais, escritores, artistas, com o despotismo, o fascismo, a repressão. Neste livro, esta relação de comprometimento tem o seu contexto no Chile da ditadura de Pinochet e da junta militar, mas ela alastra-se à história dos intelectuais ocidentais. Um jovem padre de sólida formação intelectual clássica, crítico literário, poeta, professor, que leu todos os cânones da literatura e da filosofia ocidental, que viajou pela Europa herdeira do renascimento, do iluminismo, dos modernismos, vê-se, em determinada altura, constrangido a dar aulas de Marxismo a Pinochet e à Junta Militar. Entre o absurdo da situação e o despudor com que a aceita, há todo um mundo de acontecimentos de que permanentemente se alheia: "... Lafourcade publicou palomita blanca, fiz uma boa critica, quase uma glosa triunfal, embora no fundo eu soubesse que era um romancinho que não valia nada, organizou-se a primeira marcha das panelas contra Allende, (...) houve atentados, li Tucídides, as longas guerras de Tucídides (...), também reli Demóstenes, Menandro, Aristóteles e Platão (que sempre é proveitoso), houve greves, (...) depois mataram o ajudante de ordens naval de Allende, houve distúrbios, (...) depois veio o golpe de estado, o levante, o pronunciemiente militar, bombardearam La Moneda, e, quando terminou o bombardeio, o presidente se suicidou e tudo acabou. Então eu fiquei quieto, com um dedo na página que estava lendo, e pensei: que paz." Acabará por beneficiar da sua situação de professor de Pinochet e depois envolver-se em tertúlias literárias numa casa que, se saberá depois, ser um lugar de interrogatório e de tortura da policia política da ditadura. Já velho, remomoriza toda a sua vida. O mais grave não é ter sido cúmplice de Pinochet, o mais grave, sabe-o bem, é ter fingido que a sua actuação não era política. Como hoje, aliás, a acontece a muitos outros intelectuais : "e depois se desencadeia a tormenta de merda", última frase do livro.

Noturno do Chile, de Roberto Bolaño (2000) tradução de Eduardo Brandão. SP: Companhia das Letras, 2004

apr

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