Inhotim - Centro de Arte Contemporânea - fica a uma hora e meia de carro de Belo Horizonte, junto à cidade de Brumadinho. A estrada que a ele conduz nem sempre é o que se esperaria de uma estrada que dá acesso a um dos mais inesperados e maravilhosos Museus de Arte - porque é disso que se trata - do Mundo. Inaugurou em 2004, aquando da Bienal de S.Paulo do mesmo ano, e entrou em regular funcionamento em 2006.
Abre a porta de
John Ahearn e
Rigoberto TorresTrata-se da combinação de um Museu que, na verdade, se multiplica por vários museus, alguns dedicados a um só artista e a uma só obra, e instalações a céu aberto, com uma colecção botânica que já tem 3500 exemplares, num lugar acolhedor, aprazível, intelectualmente estimulante, sensorialmente único. Tendo apenas 4 anos de funcionamento normal é já uma referência mundial no universo das artes contemporâneas e na comunidade dos botânicos. O seu impacto decorre de quatro factores muito claros: uma organização e gestão do espaço exemplares, com serviços eficazes, um acolhimento fraternal, restaurantes de grande qualidade, um cuidado e um respeito invulgares pelo jardim e pelas obras expostas; uma relação de convivialidade com as comunidades em redor, traduzida no facto de Inhotim ser o grande empregador da região, de manter colaborações artísticas com as escolas e prestar serviços à comunidade na formação cívica ou no apoio à formação escolar dos jovens; o estabelecimento de uma relação de proximidade entre a natureza e a arte, para o que contribuíu o facto de o criador de Inhotim, o empresário Bernardo Paz, ter iniciado esta aventura em colaboração com o arquitecto paisagista Robert Burle Marx. A relação de proximidade entre o jardim, as suas formas e as suas espécies, com as obras de arte e a arquitectura dos espaços que as albergam, é de uma organicidade única; Finalmente, a qualidade das obras, a sua pertinência, a importância marcante para a história da arte dos artistas presentes e das obras escolhidas, fazem com que esta Colecção não seja uma mera acumulação de peças - o fetichismo mais comum do coleccionador -, mas se trate de uma escolha absolutamente personalizada do proprietário de Inhotim, que elegeu os seus artistas predilectos e os vai acompanhando através da encomenda, ou da aquisição de várias obras correspondendo a períodos ou a momentos fracturantes do percurso criativo dos "seus artistas".
Bailarina de
Valeska SoaresÉ assim possível ver várias obras de Cildo Meireles, de Tunga, de Olafur Eliasson, os primeiros fundadores da arte contemporânea brasileira, como é possível ver espalhadas pelo jardim obras de Adriana Varejão, Valeska Soares, Doris Salcedo, Doug Aitken, Helio Oiticica, Jarbas Lopes e outros, num total de cerca de sessenta peças que estão, actualmente, expostas. Nenhuma parece estar a mais, nenhuma é pensável poder abandonar aquele local a partir de agora. A História do Brasil, na sua imensa riqueza, é tanto uma história de paradoxos como de acontecimentos imprevisíveis, onde a paixão e uma certa loucura vizinha da genialidade estão sempre presentes. Penso isto quando me lembro do empreendimento ciclópico que foi construir a
Ópera em Manaus no séc. XIX, no meio da selva amazónica, para aí fazer cantar Caruso. Há algo deste desregramento criativo também em Inhotim. Que sorte têm os brasileiros e todos nós, que gostamos de arte e de jardins.
Hélio Oiticica apr