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Próximo Futuro

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12
Ago11

Golgona Anghel

Próximo Futuro

(foto de Ozias Filho)

 

 

Esta autora é romena mas vive em Portugal há 10 anos e escreve em português. Escreveu um livro intitulado Vim porque me pagavam. Chama-se Golgona Anghel e é um abismo.

A ler, mas só os mais afoitos.

António Pinto Ribeiro

 

 

Porque falta meia hora antes de

tomar o comprimido para dormir,

porque mesmo depois de tanto tempo

fazes de mi o filho com síndroma de Down

de Arthur Miller,

porque escrever não é só abrir cabeças

com o bisturi de Lacan,

e porque um poema não é a Isabella Rossellini

a chorar todos os sábados à noite,

nem o casal encontrado abraçado

na paralisia bucal do Vesúvio.

Porque a poesia não é a ponte Mirabeau

num cartaz de néon da adolescência,

porque hoje, quando ligaste,

era apenas porque te tinhas enganado no número,

porque estou cansado, voilà,

e não consigo evitar a noite,

penso agora em ti, Juliana,

heroína no sentido naturalista do termo,

penso sobretudo no teu arzinho

de provocação e de ataque.

 

Podias ter sido a Maria Eduarda

do cinema norte-americano,

a rapariga que ajudou a pôr fim à guerra em Vietname,

a Frida Kahlo e o Kofi Annan,

a estátua de Notre Dame.

 

O teu sentido reformista,

o teu olhar de Eça socialista,

cá está,

tinhas cabeças para embaixadora da boa vontade,

pés para andar nos corredores da ONU,

o feitio da botina, a mania, a despesa.

 

Mas continuas a dormir no teu cacifo húmido,

de cara para a parede

enquanto 20 repúblicas foram perpetuando

campanhas eleitorais e golpes de estado

nos jornais com os quais limpas os vidros da cozinha.

 

Coitada, coitadinha, coitadíssima,

permaneces na sala, um pouco pálida e fraca,

mas restituída aos deveres domésticos e aos prazeres da sociedade!

 

O feitio da botina, a mania, a despesa,

o cheiro a terebintina,

Ó Juliana Couceiro Tavira, per omnia saecula,

chega paracá a garrafa e o cinzeiro;

temos assuntos por tratar e meia hora de créditos.

 

Golgona Anghel

in Vim Porque Me Pagavam (Lisboa: Mariposa Azul, 2011)

 

 

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