Quarta-feira, 9 de Setembro de 2009


Veneza da escritora Jan Morris é o livro ideal para trazer para esta viagem. Não é um guia de viagem, nem um romance com Veneza como cenário, nem um catálogo de citações a propósito da cidade italiana. É um livro escrito por alguém que viveu por várias vezes nesta cidade em circunstâncias muito diferentes. Dá-se o caso, de por exemplo, a primeira edição da obra ser de 1960 quando a autora era ainda o autor James Morris. O facto de ser um livro de uma reputada escritora de literatura de viagens, mas que tem a singularidade de fazer da sua experiência de habitante sazonal das cidades que escreve torna a leitura um enorme exercício de prazer para o que contribui uma espécie de labirinto de surpresas dado pela diversidade de trechos. Em Veneza Jan Morris tanto nos descreve a fundação da cidade, como toda a organização dos serviços complicadíssimos da recolha do lixo, os heróis da história da Sereníssima, o impacto das viagens de Marco Polo, o sistema complexo da eleição dos Doges, quanto as marcas das influências islâmicas ou inglesas, a descrição pormenorizada das últimas duas pinturas de Tintoretto e de Ticiano, a comida veneziana, etc. Embora seja alguém que muito gosta da cidade, Jan Morris não se escusa a descrever a malícia, as histórias perversas, a malvadez de muitas das suas personagens e até a ser objectivamente crítica face a traços menos qualificados dos habitantes. Com alguma tolerância, é certo, nomeadamente no que diz respeito aos gondoleiros,mas acutilante relativamente à sobranceria, ao oportunismo, à pequena vigarice do comerciante ou à altivez do hoteleiro.
São muitos os trechos de detalhe do dia a dia de quem de facto viveu intensamente a cidade , a par das referências das dezenas de narrativas de escritores ou testemunhos de músicos, soldados, cineastas em relação à cidade.
O livro tem a grandeza de descrever a morfologia da cidade combinada com uma história de costumes e de mentalidades. É um livro sobre uma cidade antiga cuja leitura é no presente de um enorme prazer. Há uma excelente edição portuguesa na editora Tinta da China.


publicado por Próximo Futuro às 09:25
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