Quarta-feira, 27 de Abril de 2011

 

 

 

 

O grande poeta Gonzalo Rojas, falecido esta segunda-feira dia 25 de Abril, em Santiago do Chile, vítima de um AVC aos 93 anos de idade, lê o seu poema 80 Veces Nadie perante a multidão na Plaza de los Pies Descalzos de Medellín, por altura do Festival Internacional de Poesía de Medellín, em 2003.

 

Mais sobre Gonzalo Rojas aqui e aqui. A voz do poeta em Qué se ama cuando se ama por aqui.



publicado por Próximo Futuro às 14:45
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Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011

 

Sabem o que é sair de um espectáculo de teatro com os pelos dos braços eriçados? Ainda se lembravam? Perguntava-se um espectador à saída do último espectáculo de Guillermo Calderón, na verdade do díptico constituído por Discurso e Villa. As duas peças decorrem na Villa Grimaldi, conhecida na Ditadura por Londres 38, uma casa que  está associada ao regime de Pinochet, um sítio que foi um dos lugares mais tenebrosos  de tortura de presos políticos e onde morrerram 93 pessoas entre Setembro de 73 e setembro de 74. A casa - hoje monumento da História do Chile - está no seu interior sinalizada por uma planta indicando os lugares e o tipo de actividades dos torturadores: identificação dos presos, tortura, sala dos guardas, arquivo dos ficheiros, etc.

 

A primeira peça apresentada – Discurso - é um  discurso ficcionado da despedida da Presidenta Michelle Bachelet quando deixou o Palácio presidencial . E começa: “Hoje não vos vou falar com palavras dóceis e esperadas…” E segue-se um manifesto do exercício do poder do ponto de vista de alguém que se assume como mulher, pediatra, optimista e socialista. Não é um discurso vago, nem tão pouco conceptual. É um discurso sobre as expectativas aquando da sua tomada do poder, das suas e das dos chilenos, e uma avaliação da História recente do Chile, a começar nos anos da ditadura. Nada há de demagógico ou sumptuoso neste discurso, que é representado por três jovens actrizes. E é fascinante como Calderón pega numa matéria tão arriscada, numa personagem que é considerada  como a melhor presidente da História do Chile – que já começa a ganhar contornos míticos - e interroga o que é o poder; no caso concreto de alguém que o exerceu sempre com o objectivo de transformar socialmente o país. Tendo sido uma presidente que sempre apoiou as artes e o teatro em particular (são memoráveis as suas recepções fraternas e simples aos actores, encenadores e programadores de teatro no Palácio de la Moneda) nunca há nada de narcísico neste Discurso. É uma crença associada a um sentido do real que foram duas características do seu governo:”Esperemos que o capitalismo seja apenas uma fase negra da historia e que depois venham coisas melhores” e “Não sou ingénua, sou optimista”. Que fazer? Como fazer? Interroga-se a Presidenta. Num momento da História em que todos reclamamos por líderes políticos de densidade intelectual, coragem e promessa de futuro, ou seja, num momento em que reclamamos por heróis contemporâneos, Calderón atreve-se a tratá-los.

 

 

E depois ? Que se poderia esperar? Parece que o Discurso tinha encerrado a questão. E chega a segunda parte que  decorre na mesma sala e com as mesmas actrizes e o tema é aparentemente simples: que fazer àquela casa que tem esse passado tão histórico e é uma memória a preservar da luta clandestina e da tortura? As três actrizes discutem frente a uma mesa sobre a qual está uma maquete da Villa Grimaldi. Trata-se de uma comissão que deve decidir qual a opção a tomar: fazer um museu contemporâneo interactivo e repleto de tecnologia que apresenta a História da casa de uma forma virtual, com detalhes de como eram feitos os interrogatórios –“basta um clic do rato”- ou fazer  uma casa do terror onde seja óbvio o tipo e actividades executadas pelos torcionários e, mais tarde, aparecerá uma outra hipótese: uma casa simples por onde se passasse e se pensasse na alegria que seria viver naquela casa antes e depois do período triste. A partir deste dispositivo realista,  aparentemente simples, até banal num campo mediático, Calderón constrói uma das mais fortes, sólidas, profundas dramaturgias sobre a criação humana das artes, a validade da arte contemporânea, o debate democrático, os conflitos ideológicos, o papel da museografia; e em nenhuma situação há qualquer sinal da introdução ideológica possível do autor. O final absolutamente inesperado é de uma grandeza humana só possível de conceber por aquele que é hoje um dos mais fundamentais dramaturgos e encenadores contemporâneos. Calderón tem tido a coragem e a sabedoria de trabalhar com temas dolorosos, presentes, utilizando reportório clássico (Neva baseado em Tchekov)  ou textos actuais, onde está sempre presente a relação do teatro com a cidade, indo fundo nas suas questões, indo até ao limite do pensável  fazendo dele um dramaturgo de descendência directa dos grandes autores gregos da tragédia clássica.



publicado por Próximo Futuro às 11:24
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A Gastronomia de Santiago está em transformação; já não há só (muitos) restaurantes de carne, mas agora é possível encontrar muitas ementas de culinária peruana! com restaurantes de sucesso que apresentam os pratos típicos como Chevich e Tiritas e, também, restaurantes vegetarianos. Huerto é um desses restaurantes que fica no Bairro da Providência e tem uma ementa vegetariana muito próxima da luxúria.

 

A carta desta semana:

 

Mezze de Cleópatra

Namaste de la Cuisine Hindú, Thali

Nuevo México

Chile, fruits de la tierra

Valle de la Luna

Islas Griegas

Sureña Mestiza

Insalata di Riso

Yuppie, Flower Power

 

e como refresco : Limonada com menta

 



publicado por Próximo Futuro às 10:12
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Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2011

 

A Companhia dos Actores, companhia brasileira que muitos portugueses conhecem através da apresentação de peças na Culturgest na década de 90, e no CCB há poucos anos, está aqui presente com um conjunto de obras muito representativas do seu reportório. Algumas delas fazem parte de um ciclo de pequenas peças de cerca de 45 a 60 minutos, maioritariamente monólogos e encenadas por encenadores não residentes na Companhia. É o caso da obra Bait man escrita e encenada por Gerald Thomas. É uma obra sobre as ditaduras, sobre o medo e como o ultrapassar. E, curiosamente, é uma obra que explora uma linha completamente diferente da maioria do bom teatro sul-americano que trabalha estes temas. De uma maneira geral, eles são tratados, por exemplo no Chile, de uma forma ressentida, amargurada, de algum modo discorrendo sobre o trauma para, possivelmente, dele se libertarem. Bait man é, ao contrário, uma obra provocadora, iconoclasta, onde a fisicalidade e alguma escatologia associadas ao humor estão sempre presentes. Que se pode dizer quando, alguém ensanguentado que acaba de ser submetido à tortura diz como primeira frase: “o que era bom, mesmo bom agora, era tomar um champanhe”. O actor Marcelo Olinto realiza uma performance de invulgar fisicalidade e ironia. A estratégia da encenação possibilita algum entendimento do que deve ser viver sob a ditadura, qualquer uma.

 

 

 

 

 

É tão bom ver bons actores representarem bom teatro. Vale as horas de espera, os dias cheios de espectáculos medianos ou sofríveis, o cansaço, a decepção, o calor das salas ou o seu desconforto. É uma expressão perfeita que o mundo, às vezes, consente. No Teatro Cariola, um teatro muito antigo de um bairro popular de Santiago - quase em ruínas, mas onde ainda eram visíveis sinais do glamour e da riqueza do tempo em que foi construído, no princípio do século XX, com os seus mil lugares e um palco gigantesco -, foi apresentada Chaika, que é a tradução fonética da palavra Gaivota em russo. O texto base era de Tchekov, claro. Apropriado como acontece muitas vezes, mas apropriado com uma dramaturgia correcta, actualizando, sem efeitos, o texto no contexto de uma cidade libertada. Com um texto assim poder-se-ia ficar pela sua leitura, o que já seria bastante, mas não. Vieram os actores deste Colectivo de Montevideu e representaram, com todo o corpo, com uma dicção perfeita, modulações adequadas, suportadas por técnicas de representação eficazmente incorporadas, por timbres de vozes convincentes. Eram excelentes, os actores. É tão bom ver um espectáculo assim.

 

 



publicado por Próximo Futuro às 16:36
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Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011

Santiago a Mil, o Festival de Teatro de Santiago do Chile, iniciou a sua edição deste ano com um programa que combina produções europeias de invulgar qualidade com produções latino-americanas, representando a maioria dos países deste continente. Um dos mais importantes e profissionais festivais de teatro do mundo a assumir-se como plataforma mundial do teatro contemporâneo. De tal forma que foi ontem anunciada a criação de um Mercado para as Artes Performativas que ira acontecer na próxima edição de 2012.

 

Peças de teatro

 

Las Analfabetas, texto de Pablo Paredes para duas maravilhosas actrizes: Valentina Muhr e Paly García Diseño. Texto sofisticado, dramaturgia clara e eficaz com detalhes preciosos de linguagem e de trama. As relações de poder entre quem ensina - a professora - e quem aprende, neste caso, uma analfabeta de cinquenta anos; as relações amorosas que acontecem no processo de aprendizagem do acto de ler. Tudo a propósito de alguém que quer aprender a ler só para poder ler uma carta que o pai falecido lhe deixou escrita. Para quem tem acompanhado o teatro chileno, nomeadamente através de Neva e Hechos Consumados, este é mais uma prova da grande tradição do teatro chileno, agora com dramaturgias actuais e actores extraordinários.

 

 

 

Amledi, el tonto, escrita e dirigida por Raúl Ruiz, é o seu último trabalho, e a sua estreia na encenação e direcção teatral. Não é parecido com nada; é um objecto de uma estranheza radical: mistura de fábula de animais combinada com história das religiões, história da convivência entre Mapuchos e Vikings (há provas arqueológicas da presença de Vikings no território que hoje é o Chile). Um espectáculo sincrético, anacrónico, que surpreende em cada momento que passa: imprevisível durante as três horas de duração num cenário que evoca o grande teatro de texto do princípio do século passado ou as grandes narrativas hollywodescas sobre Roma, Grecia, Cleópatra... um texto de uma sabedoria antiga. Fenomenal, como diriam os Chilenos!

 

 



publicado por Próximo Futuro às 10:07
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Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

 

A encabeçar a lista de sítios a visitar em 2011, para o New York Times, a cidade de Santiago do Chile. As razões aqui.



publicado por Próximo Futuro às 08:39
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Segunda-feira, 3 de Maio de 2010

É o que promete o ELEMENTAL, projecto do arquitecto chileno Alejandro Aravena onde se "opera sobre a cidade e a sua capacidade de gerar riqueza e qualidade de vida".



publicado por Próximo Futuro às 15:53
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Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

Quando se dobra a rua Namur é uma manada de elefantes que encontramos pela frente. Santiago do Chile é uma cidade improvável. Nas noites quentes de Janeiro as buganvílias coloridas emaranham-se pelas fachadas em mármore das Vilas com portões de aço bordados há cem anos. A cidade tem pátios, jardins, cantos com cafés onde famílias inteiras comem "empanadas", e os adultos bebem vinho chileno e as crianças sumos de anona e de morango ou saboreiam sorvetes de muitos sabores. No Emporio La Rosa e em letras cor de rosa está escrito nas lousas penduradas nas paredes: le ofrece, e depois a verde, frescas ensaladas, deliciosos sandwichs, jugos naturales, bebidas, - café.

Qué lindo!

Em Santiago, as estações do ano ainda são quatro e a cidade muda em cada uma delas. No Inverno, quando a Cordilheira desaparece no meio das nuvens baixas, a cidade fica fria e sem imaginação. No Verão é libertária, pública, quente e nas suas memórias atropelam-se revoluções, projectos, fantasias, cartazes de rua, teatros… Santiago é uma cobra serpenteando ao longo de 32 Km, esgueirando-se entre a Cordilheira e o mar; é uma espinha bordada de abacates e de milhares de brinquedos estendidos nos passeios pelos vendedores ambulantes.



Os Santiguinos gostam muito de teatro e as salas enchem-se. Santiago é uma cidade de actores, alguns muito jovens com as mãos muito coladas ao lado do corpo, e outros mais velhos, eternos, que representam desde antes da Ditadura, durante a Ditadura e continuam a fazê-lo na Democracia. Representam e agradecem com a gratidão de sempre, gostam das palmas de sempre e agradecem sempre com uma flexão com as mãos juntas e serenas e saem depois pela direita alta, numa sala de teatro inventada em plena Assembleia Nacional.

O cinema dos Santiguinos tem muito mar - o mar do Norte e o mar do Sul - vento, famílias reunidas em casas nas dunas ou jovens de camisolas de lã olhando para lá do mar.

Os Santiaguinos são patriotas e acreditam no futuro e gostam com orgulho da sua cidade, gostam muito dela no Inverno e em todas as estações.



No bairro Providencia há muitos Bancos e centros comerciais dos anos 70 em forma de caracol. No Bellverde há ateliers de artistas e as casas são de cores garridas. No bairro das Bellas Artes pode ler-se Álvaro de Campos nos tampos das mesas.

Em Santiago, os homens andam muito velozes nas ruas ou perfilam-se em seus fatos escuros nas estações de metro. Acautelam-se com as mulheres com seus peitos altos destemidos.

Santiago é uma cidade melancólica sim, com os seus antiquários, alfarrabistas, toalhas de linho engomadas a rigor, arquitectos-urbanistas utópicos e novelistas secretos.

Santiago é a capital e maior cidade do Chile, tem 641.4 km² e uma população de 5 428 590 pessoas

apr


publicado por Próximo Futuro às 08:01
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Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010
Luís Sepulveda é um contador de histórias exímio. Faz parte da melhor tradição da cultura da oralidade urbana que nasceu nos cafés de Santiago do Chile, de Buenos Aires e nos botecos do Rio de Janeiro. Há sempre algo de charla na maneira como Sepúlveda tece as suas narrativas, no tempo longo que as suas personagens se permitem ter, personagens que são sempre "figuras" da cidade, na aparente inverosimilhança dos episódios vividos, na sistemática presença de alcunhas, num psicologismo popular. Nesta sua última obra, intitulada "A Sombra do que Fomos", três antigos militantes de esquerda dos tempos da ditadura chilena, hoje sexagenários, decidem, apesar de viverem já num regime democrático, dar o seu último golpe revolucionário. Para tanto, e passados trinta e cinco anos, reunem-se comendo frangos de churrasco num velho armazém nos subúrbios de Santiago. Durante esta reunião discorrem sobre as suas aventuras passadas e sobre o lado tenebroso e mortífero do regime de Pinochet. Ao mesmo tempo, um casal desavindo - ele abandonou a guerrilha e agora passa os dias em casa vendo clássicos do cinema - mata por descuido uma outra personagem, que não era senão um quarto membro do grupo que se lhe juntaria para executar a acção revoluconária. Este episódio acaba por servir para introduzir a tónica de policial, com a entrada na acção de dois detectives - uma jovem e um veterano - que muito humanamente vão resolver o drama. O plano dos três ex-guerrilheiros acaba bem, descobrindo-se, afinal, que tinha sido forjado previamente por um anarquista. Desde o ínicio que as personagens ganham a empatia do leitor, pela candura que transportam e pelo seu idealismo romântico. Mas, atrás desta estória de bons e nostálgicos guerrilheiros, há um aspecto fulcral e profundamente histórico e político. Trata-se, para Sepúlveda, de olhar, estudar e enfrentar o período histórico da Ditadura. O Chile tem feito um esforço importante em tratar esses anos de uma forma histórica e acessível à maioria dos cidadãos, através de centros de documentação, de algum cinema, de muito teatro. Ao ler "A Sombra do que Fomos" percebe-se que todo esse esforço não é, contudo, ainda o suficiente. Até porque este período não está ainda encerrado. Até porque, "dizem que quando os «de cima chegaram», o inspector lia em voz alta o conteúdo de um caderno de contabilidade. Repetia nomes conhecidos, mencionava quantias alarmantes". Assim acaba a novela!


A Sombra do que fomos, trad. de Helena Pitta, Porto Editora, Outubro de 2009

apr


publicado por Próximo Futuro às 15:29
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Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010


Para ilustrar este verso, cantado por Violeta Parra, Pina Bausch criou movimentos que tornam como el musguito en la piedra, ay, si, si, si, esta sua última peça, uma das de maior enamoramento do seu reportório. Mas esta é também a mais ondulada, a mais curvilínea, a mais horizontal peça da coreógrafa alemã. E podemos continuar, e dizer que ela é também a mais melancólica, a mais onírica, fantasista e nostálgica peça de Pina. E que nela se retrata o Chile, onde a coreógrafa esteve em residência em Fevereiro de 2009, para criar esta obra estreada pela primeira vez, cinco dias apenas antes do seu súbito falecimento. Os materiais que utilizou são o feno, cordas, água, madeira, fruta, ramos de árvores secas onde as mulheres penduram os cabelos. A música são canções do reportório chileno de amor e luta, entrecurtadas com batidas que se ouvem nas discotecas chilenas, como em qualquer discoteca de qualquer parte do mundo. O Chile está presente com seus cavalos, o mar, as batatas, o vento e nas cenas de sedução, joviais e muito físicas. Bailarinos disputam entre si as mulheres. Confrontam-se. Os mais velhos correm atrás da juventude dos mais novos. Mas, são as mulheres o tema desta peça. Num cenário negro, praticamente despido de qualquer cenografia ou adereço, as mulheres são luminosas. Dançam e são solares em seus vestidos floridos, de vermelho, amarelo, carmim e azul ultramarino estampados. São belas com seus cabelos longos, um dos instrumentos coreográficos de Pina quando queria impor a autoridade feminina, o seu poder de sedução ou de punição. São sempre luminosas, até mesmo nos raríssimos momentos em que o poder masculino se lhes impõe, mas jamais como nas antológicas cenas de humilhação de outras peças mais antigas. Aqui é o vento e o amor que prevalecem. Uma mulher pode rolar no chão, atravessando o palco com uma almofada branca, como se vivesse uma noite de insónia, mas a cena que se lhe segue é de júbilo. E voltam as canções de Violeta Parra e as palavras de Ronald Kay, poeta chileno com quem Pina viveu os últimos anos da sua vida, e que poderá não ter sido alheio a esta delicada e antológica sequência de algumas das melhores canções e poemas do reportório do Chile. A peça vive da sabedoria invulgar e única que a coreógrafa tinha na composição e combinação de cenas de grupo intercaladas com solos e duetos. Nesta peça, as cenas de grupo são muito bailadas e parecem movidas como remoinhos na mais clássica composição labaniana, e os solos são invulgarmente longos e diferenciados na suas qualidades de movimentos. Pina Bausch ofereceu a todos seus bailarinos - como nunca o tinha feito - o tempo, a originalidade, o tipo de energia, a definição da cena que cada um quis criar. Agora que ela já não sobe ao palco vestida de negro para agradecer - como habitualmente fazia- o palco é todo para os seus bailarinos, maravilhosos.

apr


publicado por Próximo Futuro às 08:05
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Próximo Futuro é um programa Gulbenkian de Cultura Contemporânea dedicado em particular, mas não exclusivamente, à investigação e criação na Europa, na América Latina e Caraíbas e em África.
Orquestra Estado do Mundo
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