Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

  

(ouvia-a no programa da manhã, na Antena 1, era tema de uma crónica semanal da Clara Pinto Correia. Foi assim que conheci a música dos Beatles. E também foi assim que aprendi um certo desapego, a inquietação desagitada, que pode acompanhar o olhar quando as paisagens são novas e agrestes)

  

Nos arredores dos arredores existem os futuros territórios ocupados. Escorregam os olhos gulosos para estas margens, para estes embondeiros e para estas verduras e já se ergueram muros, debruados a arame farpado, que limitam possessões e fazem prever gente grande. Estes campos são habitados de vazio, de pedras e lixo, de poeiras acumuladas e das fantasias da ventania que trazem para aqui todos os sacos plástico da periferia. São os primeiros a chegar, azuis e brancos, transparentes, muito finos, alguns pretos também. Vêm não se percebe bem como, mas ocupam áreas imensas, esvoaçam presos ao arame, às rugas do cimento, aos restos de outros lixos e ficam ali, voadores aprisionados, a ocupar imensidões, como se de uma plantação cuidada, de um exploração agrícola, se tratasse.

Estas lavras não produzem mandioca ou banana, não têm carreiros de feijão ou tomate, não estão povoadas de mulheres ou homens portadores de enxada. Estes campos de sacos plásticos são o último silêncio que se encontra antes de chegar à cidade. São a linha de fronteira que nos avisa que estamos a chegar. A chegar aos arredores da capital.

Os arredores da capital são gigantes, esparramados pela paisagem como mancha de gordura que se alastra, vão levando tudo à sua frente, empurrando, com força de enxurrada, a vida e o modo, para o que antes era “mato”.

Os mangais desaparecem, as salinas vão sendo comidas e esventradas, o verde dá lugar a cubículos de chapas, marcadores de presença, garantia de ocupação de espaço. Nascem auto-estradas que desaguam em picadas, caóticas regras de trânsito, mais barracas, musseques, desordenamento absoluto do território, muros vedantes de espaços privados, que não criam lugar para ruas, espaço comuns ou serviços básicos. Além nascem blocos, cópias da construção social dos anos 70 e 80 da Europa, esses serão os novos abrigos dos deslocados de guerra que agora se pretendem sejam deslocados da paz para que se desinfecte a capital. Adivinham-se problemas, mas serão sempre surpresa as soluções que inventarão habitantes e governantes.

Os arredores são a radiografia exposta do coração da capital. As tripas da cidade estão aqui. Nos arredores. O cheiro a esgoto a céu aberto, o lamaçal após uma hora de chuva, os furtos, a falta de luz, o som do gerador, as crianças descalças, as moscas, a fruta e o pão à venda na porta de casa, cães e ratos, mais lama, mais esgoto e aqueles carros azuis e brancos, nervosos, desordeiros e essenciais. Desde os campos de plástico que já não é possível encontrar o silêncio. De som ou de imagem.

 

“Let me take you down,

'cause I'm going to Strawberry Fields.


Nothing is real

and nothing to get hung about.

Strawberry Fields forever.”

 

 

Elisa Santos

  



publicado por Próximo Futuro às 08:24
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4 comentários:
De Inusso Jamal a 15 de Dezembro de 2010 às 13:06
Candongueiros , musseques , barracas, o biscate e o caos urbano africano!! Melhor descrição que esta, não podia ser! Luanda.
Inusso


De renato a 15 de Dezembro de 2010 às 21:24
que delícia! :-)


De teresa pc a 16 de Dezembro de 2010 às 20:31
... assim, pela caneta da Elisa, vou conhecendo a África por onde anda! que maravilha, ... senti os cheiros, vi as cores...
tpc


De helena nunes a 21 de Janeiro de 2011 às 11:17
que belo texto elisa! a tua escrita precisa, de uma narração poética marcante, descreve essa realidade de forma clara e sem subterfúgios. num mesmo tempo abordas temas tão sérios como a poluição do ambiente e a ocupação territorial de populações que não têm outro horizonte para além da sua sobrevivência diária!


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