Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010

A ideia foi simples: organizar numa pequena vila piscatória e com um turismo de qualidade um festival de literatura; a saber, juntar em cinco dias alguns dos melhores escritores mundiais, muitos brasileiros - e a quantidade e género abundam - e pô-los a falar e conversar com um público que gosta de literatura. Resultou de tal maneira que este ano é já a 8ª edição e a FLIP tornou-se uma referência internacional nas áreas da literatura e da edição. Para este ano esperam-se 30.000 visitantes que chegam não só de varias cidades brasileiras como dos EUA, Inglaterra, Espanha, etc. O programa é diversificado, com 'mesas' dedicadas aos autores, a temas específicos, a literatura infantil e juvenil. Há lançamentos de livros, sessões de autógrafos, e a imprensa internacional e as editoras estão fortemente representadas. A edição deste ano é dedicada ao sociólogo brasileiro Gilberto Freire (GF), no ano em que se comemoram os cem anos do seu nascimento.

 

 

1º dia

A conferência de abertura foi feita por Fernando Henrique Cardoso (FHC), ex-presidente da república e sociólogo. No tempo em que FHC foi Presidente da República contava-se a seguinte anedota: qual é o maior inimigo, o maior opositor, o maior crítico do Fernando Henrique Cardoso Presidente? E a resposta era: o único verdadeiramente opositor é o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Na conferência intitulada Casa Grande e Sanzala: livro perene, FHC foi brilhante. E foi-o pela eloquência, pelo modo estruturado como falou - embora tendo a conferência escrita, não a leu - pelo sentido de humor, pela memória histórica e pela elegância crítica com que falou de Gilberto Freire, e não era fácil. Começou por fazer uma história da sociologia no Brasil, desde o aparecimento desta disciplina, as escolas, as críticas dos grupos - os cientistas contra os ensaístas -, o deslocamento do interesse da sociologia do nordeste para o sul com a influência dos americanos e dos ingleses na década de 30, etc. Permitiu-se, com muito humor, colocar o seu lugar (fundamental!) na história da sociologia brasileira e a este propósito relatou episódios esclarecedores de como a sociologia se foi implantando no Brasil através de vários protagonistas. Uma segunda parte da conferência foi dedicada à obra de sociologia de Gilberto Freire e foi admirável o modo como FHC conseguiu a partir dos livros (que, como disse, voltou a reler todos) decompor os traços da sociologia de GF, a evolução do seu pensamento ao longo dos anos, as representações que foi fazendo do Brasil durante o processo histórico e como, sem nunca escamotear as críticas passíveis de serem feitas a GF - acusado de anti-semitismo, racismo encapotado, falta de rigor académico - destacou o perene na obra do sociólogo homenageado. Referiu a sua qualidade literária, a preocupação em entender o Brasil e a sua multiracialidade, a passagem do patriarcado a um regime de industrialização e naturalmente a análise do esclavagismo e da produção da cana de açúcar. Acabou, afirmando que GF construiu um mito a partir de um trabalho permanente e nem sempre consequente da conciliação entre os contrários. Como pode este homem que teve uma importância histórica no processo de democratização e desenvolvimento do Brasil enquanto Presidente, no dia a dia nas rotinas do seu gabinete, nas reuniões de ministros, nas negociações partidárias, nunca ter deixado de ser o sociólogo lúcido que tão bem conhece o Brasil?

 

apr



publicado por Próximo Futuro às 17:57
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Próximo Futuro é um programa Gulbenkian de Cultura Contemporânea dedicado em particular, mas não exclusivamente, à investigação e criação na Europa, na América Latina e Caraíbas e em África.
Orquestra Estado do Mundo
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