Quinta-feira, 25 de Junho de 2009















Vítor Belanciano no Público de hoje

Nicolas Bourriaud teorizou sobre o conceito de altermodernidade na Gulbenkian, mas ele pode ser experienciado nos próximos dias, nas acções do programa Próximo Futuro


Domingo, o Anfiteatro da Gulbenkian, em Lisboa, converteu-se numa invulgar pista de dança, com o sírio Omar Souleyman a colocar toda a gente em delírio, através de uma música física e sintética, impossível de definir nemocidental, nem africana, nem do passado, nem do presente, mas tudo isso também.

Foi o primeiro fim-de-semana do programa Próximo Futuro e naquela libertação de energia já estavam condensadas muitas das considerações que, anteontem, o curador e ensaísta francês Nicolas Bourriaud expôs na Sala Polivalente do Centro de Arte Moderna, pequena para o interesse suscitado.

Curador, este ano, da trienal de arte contemporânea da Tate Britain, Bourriaud tem dado que falar por causa do conceito que cunhou, a altermodernidade, forma de superar o pósmodernismo, a sensação de fim de história, a hegemonização ou a nostalgia do regresso ao passado, num mundo globalizado, desordenado, massificado, em crise. Um paradigma que divide opiniões e que aplicou às artes, mas que atravessa todos os edifícios do mundo contemporâneo, propondo chaves de leitura para a actualidade.

Também ele falou da libertação de uma nova energia, como forma de resolver o impasse para práticas artísticas - mas que poderiam ser as formas de viver ou os modelos de sociedades - onde tudo já parece ter sido tentado, feito, produzido. Uma energia já não criada ou controlada, apenas, a partir do Ocidente, mas que ultrapassa todas as fronteiras. "Ser moderno no séc. XX correspondia a pensar de acordo com as formas ocidentais, hoje a modernidade produz-se segundo uma negociação planetária."

Uma energia já não presa à ideia clássica de história, mas possuída por múltiplas temporalidades simultâneas, "onde a história é apenas mais um espaço como qualquer outro". Uma energia difícil de definir, mas que, em vez de se sustentar em todos os "pós" que fomos acumulando ao longo das últimas décadas (pósmodernismo, pós-feminismo, póscolonialismo, etc), assume que a vida e arte podem ser articuladas, e surgir como experiências positivas, desde que cada um consiga "construir a sua própria navegação", não ambicionando a totalidade, "porque ela é impossível." Ou seja, assumindo que tudo à nossa volta é precário e errante. "É isso que os artistas nos têm mostrado."

É essa modernidade, finalmente planetária, e não simplesmente pseudo-ocidental, que vai continuar em destaque na programação do Próximo Futuro.

Sábado e domingo há música com A.J. Holmes e Dema Y Su Orquesta Petitera. A 4 e a 5 é a vez da Orquestra Imperial e a 11 os Gala Drop. O ciclo de cinema, a decorrer no Anfiteatro, teve início ontem, prolongando-se até 10 de Julho, privilegiando filmes - antigos e recentes - que aprofundem relações entre acontecimentos, que conjuguem imagens provenientes da América Latina, África ou Europa.

(Fotografia de Catarina Botelho)


publicado por Próximo Futuro às 12:01
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Próximo Futuro é um programa Gulbenkian de Cultura Contemporânea dedicado em particular, mas não exclusivamente, à investigação e criação na Europa, na América Latina e Caraíbas e em África.
Orquestra Estado do Mundo
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