Sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009


São Paulo de Piratininga. Aspirante ainda a tornar-se vila, localidade singela e encarapitada no cume de um planalto quase inacessível a quem vinha do mar. Nasceu assim, por pouco anônima, em 1554, nossa megalópole paulistana do século XXI. E já em sua concepção trazia dois traços que sempre lhe marcaram. Primeiro, o da confluência. São Paulo repousa em um encontro de tantos "peabirus" - caminhos indígenas, seguidos argutamente pelos recém-chegados a estas terras, em busca de ouro, prata, esmeraldas e, claro, dos próprios indígenas.


Confluência com sobrenome, acima de tudo o da diversidade. Diversidade de ideias, diversidade de origens, diversidade de aspirações. Contrastes, para alguns. Sonhos, para outros. Assim foi se formando o que é hoje a cidade mais brasileira que existe e mais internacional do Brasil. Aqui, no início do século passado, mais da metade da população era estrangeira. Mais da metade desta, italiana. Já ouviram um paulistano falando? Bingo, atente-se à sonoridade do sotaque, cheio de altos e baixos e recheado com vogais abertas. E aos italianos, europeus em geral, asiáticos, africanos e árabes, somou-se uma constelação de migrantes. Hoje, mais de metade da população (muuuito mais da metade) da cidade não é paulistana. Ao menos não por nascimento, mas certamente por adoção.

Mas, além de confluente, convergente, diversa e outras variações sobre o tema, São Paulo é, foi e - tudo leva a crer - será também profundamente desbravadora. Não raro, aliás, por completa e absoluta necessidade. Da vila pobre de Piratininga saíram desbravadores que em parte garantiram ao Brasil as dimensões que tem hoje (e a Portugal a posse da terra, pela cláusula de utis possidetis). Muitos saíram em busca de oportunidades, tantos chegaram munidos da mesma esperança, ao longo do fio dos séculos. Foi assim que São Paulo se tornou a maior cidade japonesa fora do Japão, libanesa fora do Líbano e daí pra frente, nesta pequena Nações Unidas de 11 milhões de habitantes (quase 20 milhões, somando a população circunvizinha). Foi desses encontros, catapultados pela pujança do café, completada com a da industrialização e finalizada com a dos serviços qualificados, que São Paulo ocupa hoje posição de prestígio na seleta lista de polos financeiros, culturais e inovadores do mundo. Construída a cada passo, reconstruída a várias mãos. E, confesso rendida, terra do meu e de outros 11 milhões de corações.

Ana Carla Fonseca
Consultora Cultural


publicado por Próximo Futuro às 07:37
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Próximo Futuro é um programa Gulbenkian de Cultura Contemporânea dedicado em particular, mas não exclusivamente, à investigação e criação na Europa, na América Latina e Caraíbas e em África.
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