Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012

© Amr Abdallah Dalsh / REUTERS

 

 

Onze meses depois do início da Primavera Árabe, o programador e ensaísta António Pinto Ribeiro fez check in num hotel ao lado da Praça Tahrir. Nos dias seguintes, os combates recomeçaram. "Parei de escrever a minha novela; a realidade é mais veloz do que a minha ficção", disse-lhe a escritora Magdy El Shafee.

 

Estou no Cairo em Dezembro de 2011, onze meses depois da revolução do Nilo, iniciada a 25 de Janeiro, uma das datas dessa revolução regional que os media designaram como Primavera Árabe. Não sabendo muito bem onde ficar, hospedei-me naturalmente num hotel perto da Praça Tahrir por onde, aliás, o táxi que me conduzia do aeroporto fez questão de passar, indicando-ma como lugar de peregrinação; e claro que a minha primeira saída para a cidade foi exactamente para ver a Praça Tahrir.  
 
Exalava um cheiro nauseabundo resultante do facto de, nas redondezas, haver uma única casa de banho, numa mesquita vizinha e naturalmente insuficiente para responder às necessidades dos milhares de pessoas que por ali passavam ou lá estiveram acampadas. Já não eram muitas as tendas, a maioria num estado miserável, e a população que por lá andava era constituída por mendigos e algumas centenas de jovens, muitos deles tentando vender aos poucos turistas os novos gadjets da revolução.  
 
Foi uma decepção este primeiro confronto com a praça-símbolo que há meses vem alimentando a ideia de uma libertação possível para os egípcios, para os árabes, para os europeus e também para mim que, como milhões de pessoas no mundo inteiro, viram naquela praça e no que nela se passou a possibilidade de um novo mundo. Claro que os cínicos dirão com a sobranceria do seu egoísmo e da sua ignorância que o fracasso era previsível. Não só não era previsível - como a própria revolução não o era à altura - como, pior do que isso: que tinham feito os cínicos, e em particular os europeus, para que tal não acontecesse? Como sempre, nada!  
 
Nos dias seguintes à minha chegada os combates de rua recomeçaram inesperadamente com enorme violência, fazendo mais feridos, mais mortos e prisões, e obrigando os hotéis das redondezas a encerrarem por falta de turistas e a entaiparem as janelas e as portas sumptuosas para evitarem a destruição ou a invasão. Forçado a mudar de hotel, no momento em que saía, o recepcionista chorava porque esse seria o seu último dia de trabalho. Com um salário baixo e uma família para sustentar, num país onde não existem as protecções do estado social (não há subsídio de desemprego), ele iria juntar-se aos milhões de outros egípcios no desemprego: 30, 40, 50 por cento?  
 
Ninguém é capaz de dizer o número exacto. Esta incapacidade, mais do que indiciar a ausência de uma informação estatística, é o reflexo da total desconsideração e alheamento a que o governo anterior tinha votado a população. Não lhe interessava minimamente saber o estado em que ela se encontrava e ignorava completamente as suas condições de vida e as suas dificuldades de subsistência.  
 
Com a intenção de ser solidário simultaneamente com os protestantes da Praça Tahrir e com o recepcionista, disse-lhe que em Portugal tínhamos passado por um processo semelhante, e que a situação iria acalmar e ele ia conseguir ter uma vida mais normal, queira isto dizer o que se quiser, mas não fui nada convincente. O recepcionista continuou a chorar enquanto tratava de fazer o checkout aos poucos hóspedes que ainda restavam. Depois, tivemos que descer para a cave, atravessar as dispensas e a cozinha, saindo por uma porta exígua para a rua, onde um motorista amigo esperava para nos levar a um hotel noutro bairro, mais seguro, já do outro lado do Nilo.  
 
Duas janelas  
 
Nesse hotel para onde me mudei a sensação de desolação mantinha-se. Embora aos funcionários sejam actualmente dadas instruções para dizer que todos os hotéis do Cairo estão com taxas de ocupação de mais de 60%, na realidade, esse valor é falso e é muito inferior. Nas ruas, e exceptuando os jornalistas presentes na Praça Tahrir, ou nas ruas que lhe dão acesso, e alguns funcionários das embaixadas do vizinho bairro de Zamalek, não se encontram mais estrangeiros.  
 
Os restaurantes internacionais estão praticamente vazios e os taxistas oferecem preços de saldo para quem quiser visitar as pirâmides. A televisão estatal transmite em duas janelas: a da esquerda está sempre a transmitir a imagem da Praça Tahrir, enquanto a da direita vai alternando entre telenovelas, notícias de desporto, talk shows, etc.  
 
A poluição é assustadora: uma neblina de gases está permanentemente suspensa sobre a cidade, tornando o ar irrespirável e a luz do sol rarefeita. O corpo dói com a sensação de estar intoxicado e não há garrafas de água suficientes para tentar lavar a garganta. O tráfico caótico, o zhama, e o buzinar, o hiza, constante tornam-se a cada hora que passa mais insuportáveis, e a deslocação para a baixa da cidade é mais difícil do que nunca, porque quando a ponte principal que faz a ligação entre as duas margens do Nilo está desimpedida, são aos milhares os carros que param para os mirones olharem a Praça Tahrir.  
 
Numa cidade onde não há qualquer regra de trânsito que não possa ser infringida com a maior naturalidade, a confusão é total. A piorar a situação, muitas ruas foram cortadas ou tornaram-se intransitáveis por causa das barreiras de blocos de cimento construídas pelo exército para melhor controlar os manifestantes.  
 
Para se ir do bairro de Zamalek à Townhouse Gallery, do outro lado do rio, demora-se duas horas a mais do que era costume. A Townhouse Gallery é, desde a sua fundação, em 1998, um dos mais criativos e alternativos centros culturais do Egipto, e o seu director e os artistas que ali trabalham ou residem estão preocupados. Anónimos começaram a fotografar e a filmar toda a gente que sai e entra do edifício e a inauguração de uma exposição foi cancelada porque a rua foi interdita ao trânsito. Todos se sentem ameaçados, tanto mais que a Townhouse Gallery é conhecida como lugar de acolhimento de ex-presos políticos, mulheres violadas e artistas militantes.  
 
Aqui se faz teatro, dança e exposições e nenhum texto é censurado, porque até agora a comunidade internacional, e sobretudo as organizações holandesas e alemãs, tem exercido forte pressão para proteger este espaço de liberdade de criação.  
 
O mesmo receio tem o director do Temple Independent Company, outro centro de produção de artes performativas do Cairo que tem adiado sistematicamente as estreias das suas produções. "Eles", diz-me, "já começaram a tapar as estátuas e as mulheres sem véu são insultadas nas ruas". Com o receio de que o álcool seja interdito, "muitos começaram a comprá-lo em glandes quantidades, tendo em vista consumi-lo em tempo de ilegalidade, ou vendê-lo como futura fonte de rendimento, no mercado negro".  
 
"Eles" são os salafistas ou "os barbudos", como lhes chamam. "Uns fascistas", dizem alguns, e diferenciam-nos, apesar de tudo, dos Irmãos Muçulmanos, tentando explicar-me que estes últimos são como os democratascristãos na Europa. De qualquer modo, não há fundamentalistas moderados, como bem o escreveu recentemente o escritor e poeta marroquino Tahar Ben Jelloun (n. 1944) - ser fundamentalista religioso é incompatível com ser racionalista moderado.  
 
A comunidade artística egípcia está dividida. Muitos foram os que adiaram estreias de espectáculos, concertos e tournées na Europa, ou cancelaram os projectos, uns porque as obras que estavam a criar foram ultrapassadas pelos acontecimentos - "Parei de escrever a minha novela; a realidade é mais veloz do que a minha ficção", diz a escritora Magdy El Shafee (n. 1961) - outros porque a verdadeira arte hoje está na rua.  
 
No Youtube existem dezenas de curtos documentários, canções, fotos, que mostram ao mundo o que está a acontecer todos os dias. O Youtube é, aliás, o glande écran multiplex dos altistas egípcios comprometidos com a revolução. Outros artistas, pelo contrário, sentem-se traídos pela revolução e pelo exército e só desejam partir. Decepcionam-se com amigas que, ou condicionadas por familiares ou por iniciativa própria, começaram a tapar o rosto com a niqab. Acusam a Europa de nada entender do que se está a passar e os seus cronistas e opinion makers de serem levianos nas análises da situação. Muitos têm amigos no Peru e em Santiago do Chile e é para lá que querem partir.  
 
Eu estou aqui, no Cairo, para preparar a edição do Programa Próximo Futuro (da Fundação Calouste Gulbenkian) do ano que vem, e todos eles me dizem que é a Europa que não tem futuro porque se fechou como uma fortaleza sem alma.  
 
Ressentimento  
 
A violência continua, e agora é claro que os inimigos da praça já não são só os salafitas ou os nostálgicos de Mubarak, mas o próprio exército, que deixou de ser um exército amigo para se transformar num poder contestado e a quem todos reclamam que abandone o poder. Não será nem fácil, nem rápido, porque o exército controla toda a máquina administrativa do país e as suas cúpulas detêm parte do poder financeiro, sendo responsáveis por muita da corrupção que grassa.  
 
Mas a violência exercida sobre os manifestantes e, particularmente, o episódio da mulher espancada na praça, a quem parcialmente desnudaram - um dos maiores ultrajes que se pode infligir a uma mulher neste e noutros países muçulmanos -, tornaram impossível a reconciliação dos manifestantes com os militares.  
 
Os manifestantes da Praça Tahir, que depois dos primeiros resultados das eleições começavam a perder o apoio da população, foram agora assimilados pelas manifestações de milhares de mulheres que, condenando cenas de violência como a que sofreu Farida Elhessy (que se sabe agora que era médica e que estava na praça para tratar os feridos) reclamam o fim do conselho dos militares.  
 
Estes protestantes do Cairo não são nem uma força homogénea, nem pertencem à juventude de qualquer partido político. Há os que são manifestantes autênticos, mas há também, confundidos nestas manifestações, pequenos ladrões, carteiristas e até skinheads árabes. Aliás, dever-se-á a estes últimos as cenas de provocação com cocktails molotov que acabaram por causar o incêndio do Instituto Egípcio.  
 
Fundado em 1798, durante a invasão do exército de Napoleão Bonaparte e considerada a instituição científica mais antiga do país, a sua biblioteca guardava manuscritos, mapas e cerca de 200 mil livros antigos, que arderam quase na totalidade. Os que não arderam, foram transportados em camiões, e o destino de muitos deles é uma incógnita. Há quem diga que alguns, salvos, já estão a caminho de antiquários e leiloeiros europeus.  
 
Uma das obras que ardeu quase na totalidade foi um dos raros manuscritos da Descrição do Egipto, elaborada durante a campanha napoleónica (1798-1801), o que, na versão de um jovem sociólogo que participou no trabalho de recolha dos salvados, vai permitir que as editoras francesas comecem desde já a preparar edições em formato de bolso ou de luxo/chic. Este ressentimento face a muitos estados europeus é recorrente, em particular no seio do sector cultural e artístico, que se viu ao longo dos últimos trinta anos abandonado pela grande maioria das organizações europeias, apesar de no país e na capital serem vários os institutos culturais agregados aos ministérios dos negócios estrangeiros.  
 
E, no entanto, no Cairo existe há muitos anos uma comunidade artística e cultural inventiva, trabalhando com recursos mínimos: há excelentes fotógrafos, a literatura egípcia, em árabe, inglês ou até francês, é extraordinária, jovens escritores emergem combinando a BD com narrativas curtas, os bloggs são inventivos e revelam atenção às questões internacionais pertinentes, bandas tocam noites e noites em antigos palácios onde fumar é possível e, apesar de o ambiente ser muitas vezes próximo do irrespirável, as festas acabam com o sol a irromper velozmente, como é próprio do Norte de África.  
 
Muitos são os enfeites a desejarem um Bom Natal em inglês às entradas dos hotéis mas também em algumas ruas, o que não deixa de ser senão a confirmação da globalização de uma festa europeia numa cidade maioritariamente muçulmana e onde a minoria cristã copta só celebra o seu Natal em Janeiro.  
 
À noite continuo a leitura de Os pequenos mundos do edifício Yacoubian (de 2002 e editado em português, pela Presença, em 2008), de Alaa El Aswany, um dos mais lúcidos e fascinantes escritores egípcios da actualidade. Ler este livro a poucas centenas de metros da Praça Tahrir é confrontarmo-nos com uma narrativa que parece ter previsto toda a revolução egípcia, e através dela se entende melhor a complexidade deste país.  
 
Sobre a pequena mesa do quarto amontoam-se outros livros de outros autores egípcios que é urgente ler: Gamal El- Ghitani, Khaled El-Khamissi, Latifa, Al-Zayyat, Bahaa Taher Chedid. Uns antigos, outros actuais, nos seus textos estão escritas as inquietações sobre o Egipto e sobre os egípcios.  
 
O Nilo, esse, mantém-se tranquilo. À superfície, as suas águas são de uma tal calmaria que neste momento se torna até desesperante...  
 
 

[Artigo no jornal Público (no P2), 30 de Dezembro 2011]

 



publicado por Próximo Futuro às 09:00
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